A superdotação é muito mais ampla do que você pode imaginar. Quando a maioria das pessoas pensa em superdotação, imagina aquela criança que tira notas perfeitas e decora tudo na primeira leitura. Mas a realidade é bem mais rica e surpreendente do que isso. A superdotação abriga formas muito variadas de ser, e entender essa diversidade é o primeiro passo para reconhecer e valorizar talentos que muitas vezes passam despercebidos.
O pesquisador Joseph Renzulli, em 2004, propôs duas grandes categorias que ajudam a organizar esse entendimento: a superdotação escolar e a superdotação criativo-produtiva.
Superdotação escolar: o perfil mais conhecido
Esse é o tipo que a maioria das pessoas já conhece. É o estudante que tira boas notas, é elogiado pelos professores, gosta de participar das aulas, faz perguntas pertinentes e aprende novos conteúdos com muito mais rapidez do que os colegas. Ele raramente precisa de muita repetição para absorver uma informação nova, e costuma ter uma memória excelente, vocabulário amplo e interesse genuíno pela leitura.
Do ponto de vista cognitivo, esse perfil tende a se destacar nos chamados testes de QI, aqueles que avaliam, principalmente, habilidades associadas ao raciocínio lógico, linguagem e organização sequencial de informações. Dentro de uma metáfora comum na neuropsicologia, esse seria o perfil que “usa mais o lado esquerdo do cérebro”, associado a tarefas mais práticas, lógicas e estruturadas.
Em resumo: esse é o superdotado que o sistema escolar tradicional consegue identificar e valorizar com mais facilidade.
Superdotação criativo-produtiva: o talento que passa despercebido
Já o superdotado criativo-produtivo é, muitas vezes, o aluno que ninguém percebe como superdotado, justamente porque ele não se encaixa no molde tradicional.
Esse estudante provavelmente não terá as melhores notas. Pode parecer disperso, inquieto ou até bagunceiro. Não raramente, é aquele que questiona por que precisa decorar a fórmula de Bhaskara ou todas as partes de uma célula vegetal. E essa não é preguiça, é uma forma diferente de se relacionar com o conhecimento.
Enquanto o superdotado escolar é um consumidor de conhecimento (absorve muito bem o que já existe), o criativo-produtivo é um produtor de conhecimento: ele cria, inventa, encontra soluções originais para problemas reais. É a pessoa que encontra ordem no caos, que não se prende às convenções e que tem uma capacidade extraordinária de pensar fora do esperado.
Pessoas com esse perfil geralmente não gostam de rotinas, se entediam facilmente com o ensino tradicional e têm pouca paciência para teorias que parecem desconectadas da realidade prática. Por isso, muitas vezes questionam o próprio sentido da escola, o que pode ser confundido com desinteresse ou rebeldia.
É importante deixar claro: nem todo aluno que não tira boas notas é superdotado criativo-produtivo. E tirar boas notas também não descarta essa possibilidade. O que define esse perfil não são as notas, mas a forma como a pessoa pensa e resolve problemas.
Por que reconhecer ambos os tipos importa?
Todo superdotado, independentemente do tipo, precisa ser reconhecido, acolhido e apoiado. Isso inclui suporte escolar, acompanhamento pedagógico e, muitas vezes, acompanhamento psicológico.
A terapia para superdotado existe exatamente para isso. Uma das particularidades dessa condição é que o alto nível intelectual nem sempre caminha no mesmo ritmo que o desenvolvimento emocional. Em outras palavras: uma criança ou adulto superdotado pode ter uma capacidade intelectual muito avançada e, ao mesmo tempo, encontrar dificuldades para compreender e processar as próprias emoções.
Nesse contexto, a terapia para superdotado atua como um catalisador, não apenas para o desenvolvimento emocional, mas para que o próprio potencial intelectual possa florescer de forma mais integrada e saudável.
Letícia Marques
CRP: 06/114.273
Se este texto te tocou, talvez faça sentido conversarmos. Atendo adultos neurodivergentes há quase uma década e a primeira conversa é gratuita. Entre em contato ou me chame no WhatsApp.